novembro 10, 2009

Magusto à bêbado

Respondendo ao pedido das meninas da Aldeia mais popular da Blogosfera,  partilho com todos  um magusto que recordo.

A Cusca Endiabrada cresceu no seio de uma família rural, retendo hoje apenas vagas lembranças dos rituais inerentes a cada época do ano, como a apanha da castanha, o magusto ao ar livre com a obrigatória prova do vinho novo no dia de S. Martinho que o Senhor José Gago, seu avô materno, se orgulhava de produzir e nesse dia servia aos vizinhos com tanta generosidade quanto o empenho com que restringia a bebida ao genro, mantendo uma cuidadosa vigilância ao tonel, devido à evidente incompatibilidade entre este e o precioso néctar.


A mãe lamentava-se que o pai nem o vinho devia cheirar, levando-a a supor  que sofria de alergia ao natural corante tinto, só depois se apercebendo que a cor era irrelevante e que o branco exercia nele o mesmo efeito, mas o pai teimava em afirmar que o vinho lhe conferia inteligência, o que parecia ser verdade, dado que mal empinava um copito logo surgiam sinais  de genialidade e começava o espectáculo que variava em número e duração conforme a dose ingerida, começando por ser ocasionais e por fim a ter lugar "dia sim, dia sim".

Num dia de S. Martinho, cujo ano já não recordo,  o pai chegou a casa animado, prometendo aos filhos um fantástico Magusto! A mãe  murmurava baixinho que ele já vinha com a "cadela" levando-os a olhar na sua direcção na esperança de verem surgir um “cachorro”.

Acende-se a fogueira, castanhas no alguidar, as crianças ansiosas vêem o pai fazer malabarismos à volta do lume ensaiando um novo número que diz ser infalível que faz questão de exibir ainda antes de assar as castanhas! A mãe prevendo que dali nada de bom resultará, tenta distraí-lo, demove-lo da ideia, ralha, chora e lastima a sua vida, mas em vão. Do bolso do pai sai um maço de notas que enfia no borralho cobrindo-o com cinza, enquanto afirma:

-  Não arde! Querem uma aposta como não arde? Garanto-vos que não arde! E a seguir assamos as castanhas e vão ver como hoje ficam mais gostosas que nunca!

Não que não ardeu! À excepção de 2 notas de 20$ chamuscadas que a mãe conseguiu salvar, o fruto de uma semana de trabalho ficou reduzido a cinzas.

E foi assim, especial e inesquecível, o Magusto desse ano. Em vez de castanhas e água-pé, engoliram-se lágrimas e  a família foi dormir sem ceia, dando graças a Deus por nessa noite o espectáculo não ter incluído umas “cinturadas”.




11 comentários:

Mexicano Tarado disse...

Deve ser a essa espécie que chamam "castanhas do diabo", não?

Parisiense disse...

Mas que história mais triste cusquinha....
Irra lá que de um magusto destes eu dispenso....

Amanhã também vai haver um magusto lá com os nossos meninos, mas para mim o dia 11 de Novembro é o dia em que a m/terra amada teve a sua tão desejada independência para depois fazer como esse pai aí.....estragar tudo.

Bom magusto.
Beijokitas

Zé do Cão disse...

Esse pai era igual a milhares de pais
que infelizmente ainda há neste País.
Ainda é muito vulgar, nos dias a seguir ao seu clube perder, neste caso é para esquecer, porque se ganhar é para festejar, irem aos centros de saúde, as suas esposas (?)
com a cara amachucada e "alvaiade" à volta dos olhos, receberem tratamento,
mas dizendo ao médico, que o seu marido é um Santo (Será S. Martinho) só é pena é ser assim com o vinho.
Pois o gajo largou fogo ás notas?
Pois o Zé conheceu um nome Coutinho, que tinha o hábito de limpar o «sim senhor» a nota de 1.000 esucos. Os seus trabalhadores rurais andavam sempre à espreita, à espera de ver em que moita ele se agachava...
biquinhos

Conversa Inútil de Roderick disse...

Rico Magusto!!!!

Susana disse...

Cusquinha: Que exagerada! Nós as meninas mais populares da blogosfera? Não vamos a tanto!

A tua história deve ter marcado mesmo... a noite que prometia mágica acabou um pouco turva...pobre da tua mãe e de vocês que ficarm sem comer... outros tempos, bem tristes!

Bjs Susana

Espaço do João disse...

Olha a minha querida netinha!!!
Já há muito tempo que não passava por cá. Afinal parece que está a entrar nos eixos. Pena que se esqueceu que vovô João nasceu em dia de S.Martinho. Mesmo assim não foi á adega provar o vinho nem fêz magusto, pois sofre um pouco de estômago e,essas igurías não lhe fazem bem. Longe vão os tempos em que festejava tal data com vinho e castanhas. Os tempos são outros. Beijinhos dos vovós Fernanda e João.

Helena Teixeira disse...

Olá Cusquita!
Então,menina,anda desaparecida? Ainda não é altura de testes e exames ou é? Ai ai ai...
Deve estar concentrada a estudar.Pronto,retiro-me com pézinhos de lã :)

Jocas gordas
Lena

Teté disse...

Pois é, Cusquinha, infelizmente parece-me que ainda existe muito disso, hoje em dia... Há homens (e mulheres) que têm mesmo uma má relação com o vinho...

A história é triste, mas imagino que também inesquecível!

Beijocas para ti!

Laura disse...

valha-me Deus cusquinha e por onda andava eu a tua madrinha? credo filha ia buscar-te, mas que historinha tão tristinha essa, valha-me...beijinhos da madrinha.

Helena Teixeira disse...

Menina Cusquinha!!!!Por onde anda? A estudar para os testes? hum?
Bom,se tiveres um tempinho,participa na Blogagem de Dezembro da Aldeia.O tema é:O Natal na minha Terra.Já sabes,basta enviar um texto de máx. 25 linhas e 1 foto para aminhaldeia@sapo.pt até dia 8/12.

Jocas gordas
Lena

Espaço do João disse...

Eu bem me queria parecer que a minhanetinha não era assimtão novinha.
Então deixas-te arder as notinhas de vinte mil reis? há quantos anos isso se passou? Beijinhos do vovô.